Olá, leitores.
A motivação para esta postagem partiu de uma conversa ocasional na nossa página do Facebook:
Liliana Silva
Oi. Tenho uma pergunta: quem criou deus?Em tua opinião, se nunca tivesses ouvido falar em deus, se ele nunca tivesse passado na TV, e os teus familiares e conhecidos nunca tivessem ouvido falar disso, como é que ele iria parar ao teu cérebro?Respostas ao Ateísmo
A pergunta "quem criou deus" é por si só uma falácia. Pois Deus por definição é um ser necessário ou não-contingente. Os argumentos cosmológico e ontológico para a existência de Deus, por exemplo, exigem que Deus seja um ser atemporal, imaterial, necessário e muito poderoso.Em relação à segunda pergunta, seria possível sim que eu nunca tivesse ouvido falar nele, assim como há de fato muitas pessoas no mundo que não o conhecem. Mas Ele se revelou historicamente ao mundo e sua mensagem tem sido espalhada desde os tempos de Cristo.E mesmo que nunca tivesse ouvido falar dEle, ainda há todas as maravilhas da natureza, a ordem intrínseca do Universo e nosso senso moral, coisas não-teológicas que de certa forma apontam para um Criador.Liliana Silva
Obg. Qual é a evidência concreta mais forte que comprove a existência de um deus (ou deuses)?
Respostas ao Ateísmo
Sobre "evidência", cara Liliana, sua pergunta é um tema para uma postagem inteira no meu blog. Vou trabalhar nisso e quando estiver pronto publico e te mando o link (já aviso que pode demorar meses, há uma lista de espera grande dos textos). Mas, se estamos falando de argumentos e não de evidências, eu já escrevi alguns.
Liliana Silva
Não reconheço qualquer evidência apresentada que comprove a existência de um deus ou deuses.
Antes de responder se há ou não evidências, é preciso definir alguns pontos fundamentais:
1. De que tipo de evidências estamos falando?
2. Existe algum tipo de evidência que deveríamos esperar, caso Deus existisse?
3. A existência de Deus pode ser provada cientificamente?
Uma objeção frequente de ateus (e até de agnósticos) em relação à existência de Deus é que, segundo eles, não há evidências suficientes para que se acredite. Mas afinal, de que tipo de evidências eles estariam falando? Se você falar com um deles (e eu já perdi a conta de quantas vezes ouvi isso), eles dirão "Se todos os casos de câncer do mundo forem curados instantaneamente, acreditarei em Deus", ou "se todos os porquinhos-da-índia voarem, eu acredito", ou "se esta cadeira começar a levitar na minha frente, então Deus existe." É evidente que estas pessoas não pararam pra pensar nas duas primeiras perguntas que eu propus acima. Então, vamos refletir um pouco sobre isso:
Existe uma disciplina chamada metodologia da pesquisa, e ela possui alguns princípios básicos:
(1) a definição do escopo de busca;
(2) a definição do plano de discussão;
(3) a definição do tipo de evidência esperada que irá reforçar ou negar a tese.
Se você falhar na definição de algum destes itens, consequentemente falhará na validade de suas conclusões. Por exemplo, mesmo que o ateu diga "Aceito qualquer evidência empírica, comprovável", ele está falhando em relação ao princípio (3) por ser vago demais. Vejam por exemplo o exemplo abaixo (créditos: Quebrando o Encanto do Neo-ateísmo):
Uma garota, encontrada ferida na beira da estrada, foi encaminhada para o hospital e o delegado pediu para verificar se houve um atropelamento. O chefe da equipe médica diz “Galera, vão lá e descubram se ela foi atropelada”. Você (mais inexperiente) retruca: “Que tipo de evidência devemos encontrar para confirmar a hipótese?”.
(Opção 1)
LÍDER: Qualquer evidência, se vocês acharem que não temos o suficiente, me avisem que dou a pesquisa por encerrada.
Ou:
(Opção 2)
LÍDER: Bem, se ela foi atropelada, o esperado é que se encontrem hematomas ou fraturas na região do quadril ou das costelas, causadas pelo impacto do carro no seu corpo. Também devemos procurar escoriações nos braços, nas costas e nas àreas laterais do tronco, que seriam os resultados do atrito com o chão, no caso de ela ter sido arrastada ou arremessada para longe quando do encontro com o automóvel. Se essas evidências forem encontradas, aliado ao fato de ela estar desacordada perto de uma rodovia, então temos um bom caso para definir que ela realmente foi atropelada.
Segundo os princípios que eu citei, torna-se óbvio que a segunda opção é a mais adequada. Agora, em relação a prova ser "concreta" ou "empírica", comete-se a falácia da inversão de planos, o que quebra os princípios (1) e (2). A discussão sobre a existência de Deus é feita no plano metafísico, afinal Deus por definição é metafísico. Deve-se ter em mente aqui que, em discussões metafísicas, não existem "provas" no sentido matemático ou científico, mas sim adotam-se as posições mais coerentes. Exemplos de outras discussões metafísicas são: a universalidade das leis físicas no Universo, a impossibilidade de um infinito real, a existência de um mundo exterior a nossas mentes, etc.
Uma objeção frequente a este ponto é que se Deus, mesmo sendo metafísico, interage com o mundo físico, esta interação pode (e deve, segundo eles) ser verificada. O problema com este raciocínio é que Deus interage com o mundo físico de forma pontual e extraordinária (com milagres, por exemplo). Milagres, por definição, não são eventos reprodutíveis, portanto nunca podem ser testados pelo método científico. (Note que isto não quer dizer que não existem, assim como você não pode dizer que não existe luz infravermelha só porque você não pode vê-la. Ela apenas está "fora do escopo" da sua visão). Isto, portanto, esclarece também a terceira questão.
Continuando nossa linha de raciocínio, agora que já estabelecemos as bases filosóficas do assunto, chegamos à conclusão de que não se pode esperar qualquer evidência que se queira para a existência de Deus, nem uma prova científica, nem uma prova matemática. Mas então, como saber que Deus existe, afinal?
Existem argumentos filosóficos lógicos para a existência de Deus. Estes argumentos geralmente são um conjunto de premissas em que se segue a conclusão lógica de que Deus existe. Eles não 'provam' que Deus existe, dada a impossibilidade de provar uma afirmação metafísica, como já comentei. Entretanto, eles oferecem boas razões para que acreditemos nisso (assim como temos boas razões para acreditar que as leis físicas são universais, que não existe um infinito real e que existe um mundo exterior à nossa mente).
O fato de existirem argumentos que são boas razões para acreditarmos não quer dizer que estes argumentos são capazes de convencer todos os sers pensantes. E isto também é uma objeção frequente aos argumentos a favor da existência de Deus. O ateu alega que, se tal argumento não o convence, então o argumento não prova a existência de Deus ou então é inútil. Mas, provavelmente, o ateu nunca parou pra pensar que isto é uma consequência de qualquer afirmação metafísica. É impossível construir um argumento sobre uma afirmação filosófica qualquer que seja convincente a todos os seres racionais.
Para quem está acostumado com uma visão objetiva de mundo, com o método científico, mas ignora estes princípios básicos de filosofia, será natural procurar provas para a existência de Deus que estejam acima da possibilidade de dúvida. E pensam que o fato de os argumentos para a existência de Deus não produzirem uma certeza matemática enfraquece, por si só, a possibilidade da existência de Deus. Mas já vimso que não é assim. Isto só significa que a questão sobre a existência de Deus está no mesmo nível das outras questões metafísicas. Você não pode provar que Deus existe assim como você não pode provar que o computador que está na sua frente, neste momento, é real. Seus sentidos poderiam estar te enganando o tempo todo. E não adianta nem pedir ao seu irmão ou namorada para sentir o computador também, afinal você também não tem como provar que eles próprios são reais, em vez de um produto da sua mente.
Bem, acho que já escrevi demais, portanto na próxima parte do texto listarei os argumentos de que venho falando.
Abraços, Paz de Cristo.













