A wiki Teonismo disponibiliza um grande acervo de material relacionado à apologética cristã. Recentemente vi lá algo que me chamou a atenção, e que é um problema recorrente nos debates entre o cristianismo e não-cristianismo (outras religiões ou o ateísmo). Trata-se da Falácia do Contexto Bíblico.
O nome foi criado pela própria wiki, como sendo uma falácia lógica não oficial, uma mistura da falácia do espantalho com a citação fora de contexto. Infelizmente, este é um dos métodos mais utilizados por neo-ateus para dar descrédito a certas verdades cristãs, alegando supostas contradições e incoerências bíblicas quando na verdade não se usa as ferramentas adequadas para o contexto bíblico.
A Falácia
O que normalmente ocorre é o fato de considerar-se alguns versículos da Bíblia sobre algum tema e ignorar-se os demais, acabando por causar incompreensões. Trata-se de uma mesclagem das falácias do espantalho (diminuir o valor real do argumento para tornar mais fácil de refutá-lo) e da citação fora do contexto (neste caso, todo o contexto bíblico).
Na minha visão, ocorrem dois problemas principais. O primeiro problema é ignorar o conceito cristão da complementaridade da Bíblia. O cristão lê a Bíblia como um documento único, não considerando trechos isolados dela como a palavra final para algo, sem considerar o que o resto da Bíblia diz sobre isso. Um exemplo disto é a Lei de Talião: "Olho por olho, dente por dente", enunciada em Êxodo 21.24. Dizer que a Bíblia é repulsiva porque apoia a vingança ou coisa do tipo, mas se olharmos a Bíblia como um todo, vemos que Jesus cerca de 1500 anos depois revogou essa lei, dando um entendimento mais perfeito aos homens: "Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado". (Mateus 5.38-42) Alguém aí poderá reclamar dizendo que isso é uma contradição da Bíblia, mas isso é desconsiderar o contexto em que estas duas coisas foram ditas. Voltarei a este assunto mais adiante.
O segundo problema, como eu já mencionei antes, é a falta de uso das ferramentas necessárias para a interpretação do texto bíblico. Assim como qualquer outro texto, a Bíblia está sujeita às regras básicas de interpretação de texto. E por se tratar de textos antigos, os procedimentos são mais criteriosos ainda em alguns aspectos.
Um panorama do texto bíblico
A Bíblia é um conjunto complexo de textos, escritos num período de cerca de 1400 a.C. a 90 d.C., por mais de 40 autores diferentes, com línguas diferentes (grego, hebraico e aramaico), e gêneros literários diferentes, que vão desde documentos oficiais de reis até poesias e hinos, passando por narrações, parábolas, epístolas, profecias, legislação e códigos morais. Não se lê uma poesia da mesma forma que se lê um relatório oficial, assim como não se lê uma narração histórica de um fato da mesma forma que uma parábola. Também não se pode analisar um texto escrito há milhares de anos utilizando o nosso pano de fundo cultural como guia. A mente das pessoas daquela época não é igual à nossa.
Além disso, muitas vezes não são esses detalhes históricos que são importantes para o cristão, mas sim a essência da mensagem bíblica, que consiste no relacionamento de Deus com o homem, centrado no ministério de Jesus Cristo quando veio à Terra. Todos os livros da Bíblia estão ligados direta ou indiretamente a este fato. Em Gênesis, vemos a raça humana sendo corrompida pelo pecado e Deus escolhendo uma um homem para formar a nação na qual um dia Jesus nasceria. Nos livros seguintes, Deus está preparando espiritualmente esta nação, aos poucos. No Novo Testamento a obra redentora de Deus para a humanidade é consumada e é contada a história dos primeiros seguidores de Jesus e das primeiras igrejas. Esta linha histórica deve ser clara na mente de quem deseja extrair informação pertinente do texto bíblico.
Ferramentas de interpretação
"A Hermenêutica é um ramo da filosofia que estuda a teoria da interpretação, que pode referir-se tanto à arte da interpretação, ou a teoria e treino de interpretação. A hermenêutica tradicional - que inclui hermenêutica Bíblica - se refere ao estudo da interpretação de textos escritos, especialmente nas áreas de literatura, religião e direito" (Wikipédia). Existe todo um conjunto de conhecimentos relacionados a como se deve interpretar um texto. A hermenêutica bíblica possui algumas regras:
Regra Fundamental (Primeira Regra): Scriptura sacra sui ipsius interpres, isto é, a Escritura Sagrada é a sua própria intérprete. Muitas vezes o próprio texto bíblico explica o seu sentido.
Segunda Regra: É necessário tomar as palavras no sentido que indica o conjunto da frase.
Terceira Regra: É necessário tomar a frase no sentido indicado no contexto, a saber, os versículos que precedem e seguem ao texto que se estuda.
Quarta Regra: É preciso tomar em consideração o objetivo ou desígnio do livro ou passagem em que ocorrem as palavras ou expressões obscuras.
Quinta Regra: É necessário consultar as passagens paralelas. Para conseguir a ideia completa e exata do que ensina a Escritura neste ou naquele texto determinado, talvez obscuro ou discutível, consultam-se não só as palavras paralelas, mas os ensinos, as narrativas e fatos contidos em textos ou passagens aclaratórios que se relacionem com o dito texto obscuro ou discutível. Tais textos ou passagens chamam-se paralelos de idéias.Ás vezes, quando para a aclaração e correta interpretação de determinadas passagens que não são suficientes os paralelos de palavras e idéias, é preciso recorrer ao teor geral, ou seja, aos ensinos gerais das Escrituras.
É importante também estudar as figuras de linguagem ou de retórica (que aliás é tema obrigatório no ensino médio no Brasil), para entender quando os textos não são ditos literalmente. Isto é considerar a gramática na interpretação. Além disso, outro fator importante é o cenário histórico, ou seja, os eventos da narrativa, a quem é dirigida e como foi compreendida na época.
Voltando ao exemplo da Lei de Talião, se desconsiderarmos o contexto histórico da situação e olharmos para ela a partir dos dias de hoje, quando temos declarações de direitos humanos, etc., não vamos ver sentido naquelas palavras, e vamos supor que a Bíblia recomenda um padrão retrógrado de moralidade. Mas se olharmos esta passagem no sentido histórico e entendermos como alguém daquela época via este texto, perceberemos que ele se constituía em um grande avanço para a época. Deus estava ensinando a justiça para o seu povo, que estava acostumado a ser tratado injustamente por 400 anos, sendo escravizado no Egito, e desconheciam princípios básicos de justiça. A Lei de Moisés também continha o amor como um princípio complementar à justiça: "Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor." (Levítico 19.18). Jesus veio e mostrou que na verdade o amor é superior à justiça, ou seja, completou o ensinamento de Moisés, revelou mais uma parte da verdade, fez mais um avanço para os dias da época, e de fato os padrões morais de Jesus são um avanço até para os dias de hoje, tendo em vista os ensinamentos como "amem os vossos inimigos e (...) orem por aqueles que vos perseguem" (Mateus 5.43).
Para complementar nossa visão, vamos falar um pouco mais de "amor". A frase bíblica "Deus é amor" (1 João 4.8) é muito conhecida. Aqui poderia se cometer o erro de pensar que Deus é "puro amor", que não existe nada mais em Deus além de amor romântico. Aliás há confusão até no conceito de amor aqui. O texto original em grego, usa a palavra agape, que é a tendência em se sacrificar para o benefício de outra pessoa, como os pais fazem com os filhos; não é o amor romântico ou sentimental. Além disso, o contexto mostra que João estava escrevendo uma carta para as igrejas cristãs do primeiro século d.C., e o assunto deste capítulo não era um "tratado sobre o amor de Deus", mas sim uma advertência contra os falsos ensinos que se proliferavam naquela época (v. 1), ressaltando que o amor (agape) era a marca do cristão verdadeiro (v. 7). Ampliando mais a nossa visão para abranger toda a Bíblia, descobriremos que o amor não é a única parte da essência de Deus, mas também há a santidade, justiça, fidelidade, graça, misericórdia, bondade, onipotência, onipresença, onisciência, etc. Uma vez que Deus é Santo, ele não tolera a corrupção e a maldade. Não se pode amar a verdade sem odiar a mentira; não se pode amar a pureza sem odiar a corrupção. Deus também odeia (Salmo 11:5).
As supostas contradições
Façamos um breve estudo de caso, quanto às desonestidades intelectuais proferidas por neo-ateus em desconsiderar o contexto bíblico. Um exemplo comum é o da apologia da Bíblia à escravidão. Veja a imagem abaixo:
Uma citação descontextualizada do apóstolo Paulo serve para afirmar que ele apoiava a escravidão, ou pior, afirmar que a Bíblia apoia a escravidão? Vamos lembrar dos elevados padrões morais bíblicos: o próprio Paulo disse uma vez que "nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gálatas 3.28). Acho que vocês não tem noção do quanto esta frase é impactante para os padrões da época. Num contexto onde a exploração das mulheres e a escravidão eram regra, esta pérola moral surge dos ensinamentos de Paulo: todos são iguais perante Deus, o homem não é maior que a mulher, o senhor não é maior que o escravo. Ninguém na história havia dito isto antes, e de fato, este princípio moral é tão a frente de seu tempo que só foi absorvido pela cultura geral ocidental muitos séculos mais tarde com as declarações de direitos humanos. É isto que os textos paralelos nos esclarecem.
Olhando o contexto histórico, vemos que a escravidão praticada naquela época era em muito diferente da que estamos acostumados a pensar, da imagem a qual o cartaz nos remete enganosamente. Para isso basta ler um pouco de História. Além disso, a escravidão era uma realidade social existente há milhares de anos, que não poderia simplesmente ser mudada de uma hora para a outra, pois acarretaria em danos econômicos irreversíveis ao Império Romano, dentre outras coisas. Por isso a solução pragmática de Paulo para aquele momento era procurar meios de tornar essa mesma realidade menos penosa para os escravos. Por isso recomendou um tratamento mais humano para os escravos e para que os mesmos fossem obedientes e comportados, evitando razões para serem castigados. O resultado histórico é que o padrão moral cristão aos poucos mudou esta realidade no Império Romano, fazendo com que muitos anos depois a escravidão fosse abolida naquela cultura. (Para saber mais sobre a Bíblia e a Escravidão, leia aqui no blog: A Bíblia e a Escravidão e Refutação # 13 - godisimaginary.com).
Por mais assustador que possa, parecer, existem sites neo-ateus especializados em cometer este tipo de falácia. O conhecidíssimo Why Won't God Heal Amputees? (Por que Deus não cura amputados?) é um belo exemplo disso, e o seu primo God is imaginary consegue ser ainda pior. Para quem não sabe, eu escrevi uma refutação completa deste último site, que você encontra aqui no blog: 50 "provas" que Deus é imaginário REFUTADAS.
Epílogo
Boa parte do conteúdo da Bíblia contém verdades de caráter espiritual, isto é, que visam atingir o nosso espírito, para aplicarmos em nosso relacionamento com Deus. Por isso a Bíblia deixa claro que é necessária a iluminação dada pelo Espírito Santo para a compreensão destas verdades no texto (1 Coríntios 2.10-16). Por isso o cristão acredita que não só a hermenêutica deve ser respeitada, mas também o relacionamento com Deus é importante para poder entender e aplicar as palavras espirituais como lições de vida. A atitude do cristão ao ler a Bíblia é a mesma que a oração do salmista: "Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei" (Salmo 119:18).
Referências para estudo:
E. LUND - Hermenêutica: regras de interpretação bíblica. Disponível em:
Hermenêutica.com: princípios, estudos, mensagens e ilustrações









