quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Sobre Bertrand Russell e Por Que Ele Não Era Cristão - Parte 1 - Prefácio


Olá, leitores.

No último post anunciei que faria uma breve análise do ceticismo de Russell exposto em seu livro Por que não sou cristão, de 1957. Teria ele apresentado críticas relevantes ao teísmo cristão, ou apenas opiniões subjetivas e baseadas em conceitos ultrapassados? Seja qual for a resposta, é fato que esta publicação influenciou a geração seguinte de críticos à religião e adeptos do cientificismo. Testemunhamos o surgimento de um movimento de pessoas que publicamente não tiveram vergonha de, além de defender a não existência de Deus, fazer críticas severas aos sistemas religiosos, considerando-os prejudiciais à humanidade. Embora Russell se declare como agnóstico, o que pessoalmente considero menos tolo do que afirmar o ateísmo, ele faz críticas ao teísmo de forma a descartá-lo como uma opção assumível por uma mente pensante.

Um fato curioso é o título do livro. Russell não foi tão presunçoso quanto os seus colegas atuais neo-ateus e usou um nome que denota subjetividade: "Por que [eu] não sou cristão". O conteúdo da obra não é único, na verdade trata-se de uma coletânea de palestras, falas e pequenos ensaios do autor sobre o cristianismo e assuntos correlatos, como a existência de Deus e a moral religiosa. O primeiro capítulo é uma transcrição da palestra de 1927 que dá nome ao livro. Outro ponto alto da leitura é o capítulo que traz uma transcrição de um debate transmitido em rádio em 1948 sobre a existência de Deus, travado com o padre Frederick Copleston.

Antes de começar a análise do livro, gostaria de comentar algumas afirmações de Russell ainda no prefácio do seu livro, que merecem atenção. Para começar, Russell nos informa claramente qual a sua crença em relação a religiões:

"Considero todas as grandes religiões do mundo – budismo, cristianismo, islamismo e comunismo – não só falsas, como prejudiciais."

Achei muito interessante (e justo) aqui ele ter incluido o comunismo como uma religião, ou nas palavras dele, "um sistema de dogmas" (Unpopular Essays, 1950, p.19) . É fato que Russell visitou a União Sovética de Lenin após o final da Primeira Guerra Mundial, e ficou chocado com o autoritarismo e fanatismo do regime marxista na prática. Mas deixando isto de lado um pouco, Russell assume de antemão, no prefácio de seu livro, que todas as religiões são mentiras e não só isso, mas também são perigosas. Bem, vamos deixar que ele se explique nos capítulos seguintes. Ele continua: 

"É evidente, como questão de lógica, que, já que elas diferem entre si, apenas uma delas pode ser verdadeira. Com pouquíssimas exceções, a religião que um homem aceita é aquela da comunidade em que vive, o que torna óbvio que a influência do meio foi o que o levou a aceitar a referida religião."

Posso aceitar a sua primeira afirmação. Mas a segunda claramente não é uma verdade em 100% dos casos. Fosse assim, não existiriam budistas no Brasil ou cristãos na China. Além disso, se com isso ele quer argumentar que as religiões são falsas, ele está nada menos do que recorrendo a uma falácia genética, isto é, afirmando que algo é falso só por causa do modo como a informação foi aceita por alguém.

"É verdade que os escolásticos inventaram o que declaravam ser argumentos lógicos provando a existência de Deus, (...) mas a lógica a que esses argumentos tradicionais apelavam é (...) hoje rejeitada, praticamente, por todos os lógicos (...). Entre esses argumentos, existe (...) o argumento da prova teleológica da existência de Deus. Tal argumento, porém, foi destruído por Darwin (...)."

Aqui ele introduz o assunto sobre o qual vai discorrer brevemente no primeiro capítulo. Por um lado, é verdade que os argumentos aos quais Russell se refere tinham falhas, e não podem ser considerados hoje, pelo menos na forma em que ele os conhecia, como provas para a existência de Deus. Mas a teologia e filosofia cristã se desenvolveram bastante depois que Russell proferiu estas palavras, como comentei no post anterior. Inclusive o argumento teleológico, que ele alega ter sido "destruído" por Darwin, continua vivo hoje.

A seguir ele alega haver dois tipos de males intrínsecos às religiões. Nas palavras dele:

"[Em primeiro lugar,] (...) considera-se virtude ter fé, isto é, ter-se uma convicção que não pode ser abalada por prova contrária. (...) A convicção de que é importante crer-se nisto ou naquilo, mesmo que uma investigação livre não apóie a crença em apreço, é comum a quase todas as religiões e inspira todos os sistemas de educação estatais. O resultado disso é que o espírito dos jovens fica tolhido e cheio de hostilidade fanática tanto contra aqueles que possuem outros fanatismos (...).
(...) também existem, na maioria das religiões, doutrinas éticas específicas que causam dano definido. A condenação, pelos católicos, do controle da natalidade, tornaria impossíveis a diminuição da pobreza e a abolição da guerra. As crenças hindus de que a vaca é um animal sagrado e de que é imoral às viúvas tornar a casar, causam muito sofrimento desnecessário. A crença comunista na ditadura de uma minoria de Crentes Verdadeiros produziu farta colheita."

É notável que ele já começa com uma definição de fé que parece ter tirado do bolso, já que nada tem a ver com a definição cristã histórica. Em outras palavras, ele cria um boneco de palha do cristianismo para poder bater nele logo depois. A fé cristã não é uma convicção baseada unicamente em afirmações sistemáticas de autoridade (dogmas) muito menos em experiências puramente emocionais. Na verdade, ela consiste em uma mistura complexa dessas coisas com uma atitude racional de confiança. Idealmente, nenhum cristão acredita sem evidências, mas são as evidências que o levam a acreditar. Entre essas evidências inclui-se também a experiência pessoal com Deus. Há um artigo que escrevi há bastante tempo aqui sobre fé, que pode ser lido complementarmente, mas eu gostaria de voltar a esse assunto depois com mais calma. Mostrarei também ao longo do livro que muitas palavras que Russell usa contra a religião cristã me parecem ser apenas uso da falácia do espantalho.

Quanto à segunda crítica, deve-se primeiro notar que Bertrand Russell é um realista filosófico - ou seja, acredita na existência objetiva de uma realidade e de uma verdade. Consequentemente, sua ética é livre de relativismos. Ele realmente acredita que certas coisas são certas e certas coisas são erradas, independente de épocas ou opiniões. O problema é que ele não dá nenhuma base filosófica para essa afirmação.

Quando estudamos o argumento moral da existência de Deus entendemos que a única forma para admitirmos valores e deveres morais objetivos é a existência de um agente moral externo e absoluto, ou seja, Deus. Russell, ao ser questionado certa vez sobre isso simplesmente discorda desta afirmativa, e diz não conhecer uma resposta melhor. Em outras palavras, ele foge do argumento. Quando ele faz criticas à moral religiosa aqui, ele o faz porque certas atitudes morais de algumas religiões quebram os valores morais que ele mesmo apresenta/concorda. Mas espere! Se ele não tem como dar uma base para isso, os próprios valores morais dele são arbitrários! Não que eu não concorde com o que ele considera certo ou errado, mas estou apenas dizendo que ele não tem como dar uma base para o que ele está defendendo.

No fim do prefácio, Russell nos deixa com uma citação inspiradora baseada na sua defesa do livre-pensamento e na total aversão a qualquer tipo de autoridade ou regras no ensino:

"Gostaria de ver um mundo em que a educação tivesse por objetivo antes a liberdade mental do que o encarceramento do espírito dos jovens numa rígida armadura de dogmas, que tem em vista protegê-los, através da vida, contra os dardos das provas imparciais. O mundo precisa de corações e de cérebros francos, e não é mediante sistemas rígidos, quer sejam velhos ou novos, que isso pode ser conseguido."

Russell entende que as religiões são más justamente porque quebram esse "princípio moral absoluto" dele que é o direito ao livre-pensamento. Obviamente, a liberdade é uma coisa boa. E eu concordo que muitos sistemas de crenças dogmáticos podem prejudicar as pessoas, inclusive talvez o cristianismo, se for seguido de uma maneira não-sincera e legalista (como talvez devia ser comum na época e no lugar em que Russell vivia - comentarei sobre isso nos próximos posts também).

Na próxima parte discutiremos a exposição de Russell sobre os motivos para não ser um cristão e a sua análise dos argumentos clássicos para a existência de Deus.

Abraços, Paz de Cristo.

[Ir para a Parte 2]

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O Renascimento da Filosofia Teísta no Século XX


Olá, caros leitores.

Tenho estado ocupado com a minha vida pessoal nos últimos meses, o que tem me impedido de postar regularmente no blog. Desde o início do ano eu avisei que provavelmente o ritmo de postagem cairia, embora eu não gostaria de abandonar este trabalho, que é tão estimado por vocês leitores. 

Mas foi justamente em uma das minhas ocupações com o Mestrado que surgiu um assunto para ser trabalhado aqui. Enquanto eu estudava Metodologia Científica, tive contato com o trabalho de um filósofo que nunca parei para prestar atenção: Bertrand Russell (não, não é o cara da foto acima - eu já vou chegar lá, calma). E dentre os livros escritos por este filósofo, um me chamou a atenção: Por que não sou cristão, publicado em 1957. Eu vou ter mais tempo de falar sobre isso nas postagens próximas, mas o fato é que esse livro, junto com as tendências cientificistas de Russell, parece ter sido a influência principal para o surgimento de todo um movimento décadas depois - o neo-ateísmo. Sendo assim, eu não poderia deixar de dedicar algumas palavras aqui no blog à análise deste livro (mas não vou fazer isso agora).

Mas então, do que vou falar agora? Deixem-me explicar. Alguns argumentos para a existência de Deus que Russell citou no livro dele realmente eram considerados ultrapassados no tempo em que ele escreveu. Entretanto, quem lê este livro hoje em dia pode não ter ouvido falar do renascimento da filosofia teísta no século XX (é aí que entra o título da postagem).  Richard Dawkins, por exemplo, publicou em 2006 o livro Deus, um Delírio, que não é nada menos do que uma repetição das velhos refutações de Russell, sem se preocupar com o que mudou no mundo acadêmico da filosofia nos anos que separam estas duas personalidades. Resultado disto? O livro foi amplamente refutado, destruído impiedosamente pedaço por pedaço (veja aqui, aqui e aqui, por exemplo).

Eu não podia então deixar a oportunidade para contar pra vocês o que exatamente aconteceu nas últimas décadas que revitalizou o teísmo acadêmico e, indiretamente, a apologética cristã. O nome talvez mais importante nesta história toda é o do filósofo norte-americano Alvin Plantinga (ah, agora sim é o cara da foto!).

Plantinga chegou a estudar na Universidade de Harvard como aluno de graduação. Naquele tempo, início dos anos 1950, já se formava uma grande mobilização em favor da não-existência de Deus nos círculos acadêmicos. Em uma de suas palestras, Plantinga chegou a afirmar uma vez que, não fosse a sua transferência para o Calvin College, uma faculdade confessional cristã na qual seu pai lecionava, ele provavelmente não permaneceria cristão, nem teria desenvolvido o interesse acadêmico neste assunto. Anos mais tarde, em 1958, Plantinga obteve seu Ph.D. na Universidade de Yale. Ironicamente, um ano após a publicação do livro anti-cristão de Russell.

Enquanto isso, aquela geração estava mais indiferente acerca de Deus e a religião do que nunca. Em 8 de Abril de 1966, a revista Time publicou uma matéria de capa, a qual lançava a pergunta em letras garrafais: “Deus Está Morto?”. A reportagem, que pode ser lida online ainda hoje, tratava da “morte de Deus” ocorrida nos ambientes acadêmicos americanos, inclusive na própria teologia.


Um ano depois, em 1967, Plantinga publica o seu primeiro livro: God and Other Minds: A Study of the Rational Justification of Belief in God (Deus e Outras Mentes: Um Estudo sobre a Justificação Racional da Crença em Deus). Este livro foi o marco de uma revolução acadêmica. Seguiram-se após ele um sem número de publicações acadêmicas anglo-americanas sobre o assunto. O filósofo ateu Quentin Smith, da Universidade de Western Michigan, comentou com pesar este fato:

“Em meados do século XX, as universidades (...) haviam se tornado essencialmente secularizadas. A posição (...) padrão em cada campo (...) supunha ou envolvia argumentos favoráveis a uma visão de mundo naturalista; os departamentos de teologia ou religião almejavam entender o significado e as origens dos escritos religiosos, não para desenvolver argumentos contra o naturalismo. Os filósofos analíticos (...) tratavam o teísmo como uma cosmovisão antirrealista e não cognitivista, requerendo a realidade não de uma divindade, mas meramente de expressões emotivas ou de certas “formas de vida” (...)Os naturalistas assistiram passivamente enquanto as versões realistas do teísmo, influenciadas principalmente pelos escritos de Plantinga, começaram a propagar-se por toda a comunidade filosófica, até que hoje talvez um quarto ou um terço dos professores de filosofia são teístas, sendo a maioria cristãos ortodoxos. Na academia, Deus não está “morto”; voltou à vida no final da década de 1960 e está agora são e salvo em seu último bastião acadêmico: os departamentos de filosofia.” SMITH, Q. The Metaphilosophy of Naturalism, Philo 4/2 (2001): 3-4.

O ressurgimento do interesse no teísmo, apesar de às vezes denominado Revolução Silenciosa, não passou despercebido da cultura popular. Em 1980, a revista Time novamente publica o importante artigo Modernizing the Case for God (Modernizando a Defesa de Deus), que descrevia o despertar entre os filósofos contemporâneos para remodelar os argumentos tradicionais a favor da existência de Deus. Abaixo um trecho traduzido do artigo:

“Numa tranquila revolução no pensamento e no debate, que quase ninguém teria previsto apenas duas décadas atrás, Deus está fazendo uma reaparição. O mais curioso é que isso não está acontecendo entre teólogos ou crentes comuns, mas nos seletos círculos intelectuais dos filósofos acadêmicos, onde há muito o consenso baniu o Onipotente do discurso proveitoso.”

O Renascimento da filosofia teísta cristã no último século acompanhou-se do interesse na teologia natural, ou seja, o estudo sobre Deus independente da revelação. Muitos argumentos clássicos para a existência de Deus que remontam à Idade Média foram reformulados nos moldes mais rigorosos da filosofia contemporânea. Dentre eles, podemos citar:

  • O Argumento Ontológico, que remonta a Santo Anselmo no século XIII, foi refutado por Kant no século XVIII e reformulado por Alvin Plantinga no seu segundo livro The Nature of Necessity (A Natureza da Necessidade) em 1974. Este argumento fala sobre a existência de Deus baseado no conceito de que Deus é o maior ser concebível do Universo e o contraste entre a existência na realidade e a existência apenas na mente.

  • O Argumento Teleológico de Richard Swinburne, publicado em 1979 em seu livro The Existence of God (A existência de Deus). Este argumento transforma a questão da existência de Deus em probabilística, e usa um raciocínio indutivo amparado por evidências como a ordem apresentada no Universo.

  • O Argumento Cosmológico Kalam (chamado assim por ter sido o nome da versão do argumento da causa primeira pelo filósofo muçulmano do século XI Al-Ghazali), que foi tema da dissertação de mestrado de William Lane Craig e apareceu em seu livro The Kalam Cosmological Argument, também de 1979. Este argumento fala de Deus como a causa necessária para o Universo e se apoia no fato de que o Universo teve um início.

Apesar dos argumentos serem uma motivação para a racionalidade da crença em Deus, eles não necessariamente se constituem em provas absolutas. Plantinga defende que a crença em Deus é o que os filósofos costumam chamar de uma crença básica: para se acreditar na existência do passado, na ideia de que as outras pessoas têm um intelecto ou que um mais um é igual a dois, não se precisaria de prova. Ele argumenta ainda que a cosmovisão teísta, que vê o universo organizado e dirigido por um Deus que deu origem a criaturas racionais à sua própria imagem, “é muito mais acolhedor para a ciência que o naturalismo. (...) Na verdade, é o teísmo, não o naturalismo, que merece ser chamado de 'visão científica do mundo'”, escreve ele. Dizer que a crença teísta é irracional não é possível sem demonstrar que ela não corresponde à verdade, o que, diga-se de passagem, não é algo que a ciência é capaz de fazer neste caso.

Alvin Plantinga é considerado atualmente, junto com Richard Swinburne, o filósofo da religião mais importante do mundo. Desde 1982 ele ocupa a cadeira John A. O’Brien de filosofia na Universidade de Notre Dame. William Lane Craig tem se destacado há muitos anos pelos seus debates acadêmicos com ateus famosos, além de seus livros. Entre os seus adversários, encontram-se nomes importantes como o ex-ateu Anthony Flew, o já falecido jornalista Christopher Hitchens, o neurocientista Sam Harris, dentre outros. O próprio Richard Dawkins se recusou mais de uma vez a debater com ele.

Os ateus contemporâneos, seguidores de autores como Dawkins, Hitchens, Sam Harris e Daniel Dennett (conjunto que já foi chamado de “os quatro cavaleiros do neo-ateísmo”) parecem estar incrivelmente alheios a esta revolução da filosofia anglo-americana. Devido à enxurrada de best-sellers ateus que presenciamos nos últimos anos, se poderia pensar que a crença em Deus se tornou intelectualmente indefensável para uma pessoa pensante atual. Mas vimos claramente que isso se trata apenas de uma mera desinformação, de um eco fantasmagórico da voz de Bertrand Russell e do seu cientificismo que já foi suplantado há décadas por pensadores de seu próprio campo de trabalho (a filosofia analítica), como Plantinga, Swinburne e Craig.

Abraços, Paz de Cristo.

domingo, 7 de setembro de 2014

A Existência de Deus e o Início do Universo

Olá, leitores.
Este texto foi recuperado do antigo site cristão "Apologia", que atualmente foi desativado, mas foi uma das grandes influências do meu blog, na época em que comecei. Espero que aproveitem a leitura.

Abraços, Paz de Cristo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Jesus Cristo: Lunático, Mentiroso ou Senhor

A Evidência da Divindade de Jesus


Enquanto Jesus caminhava pela face da terra há aproximadamente dois milênios, a humanidade se dividia em três grupos com diferentes visões sobre ele. Alguns estavam convencidos de que Jesus era o Filho de Deus e então dirigiam-se a ele como "meu Senhor e meu Deus" (João 20.28). Outros consideravam as afirmações e ações de Jesus como atos de blasfêmia e "(...) procuravam matá-lo porque (...) dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus" (João 5.18). Porém um terceiro grupo pensava que Jesus era insano e deveria ser ignorado (João 10.20).

Muitos chamados "cristãos" da atualidade tentam adotar uma posição de compromisso e alegam que Jesus foi um homem bom – que foi até um homem perfeíto – porém não era Deus. Adeptos de outras religiões, e até mesmo estudiosos. chegam a considerar que ele foi um homem bom, um grande Mestre, um "Iluminado", um profeta. Considerações cuidadosas das afirmações e ações de Jesus, entretanto, excluem esta conclusão. As únicas possíveis explicações sobre Jesus são as três que foram propostas no primeiro século. Vejamos as possibilidades:

1. Jesus é quem alegou ser, o Filho de Deus, ou
2. Ele era louco e erroneamente se julgava Divino, ou
3. Ele foi o maior mentiroso que já existiu.

Consideremos as possibilidades à luz das ações e afirmações históricas de Jesus registradas nos Evangelhos.

As Afirmações de Jesus

Jesus não fez nenhuma tentativa de esconder suas afirmações de Divindade. Ele repetidamente afirmou que era o Filho de Deus (João 9.35-38; Mateus 16.16-20; etc). Os judeus da época de Jesus estavam certos de que esta era uma afirmação de igualdade a Deus (João 5.18), que Jesus julgava-se ser Deus. A própria linguagem de Jesus não deixou dúvidas, conforme ele aplicou a descrição "Eu Sou" para si próprio (João 8.24-58; veja Êxodo 3.13-14). Jesus claramente afirmou ser Deus!

O que faremos com as afirmações de Jesus? Se elas são verdadeiras, então Jesus é Divino. Se elas são falsas, então Jesus intencionalmente mentiu e foi assim um terrível farsante, ou ele era louco e foi iludido por si próprio a acreditar e antecipar o mito de sua própria Divindade. Não podemos considerar suas afirmações e menosprezá-lo como meramente um homem bom ou perfeito. Ou ele é um lunático, ou um mentiroso, ou o Senhor de todos!

As Ações de Jesus

As ações de Jesus na terra foram inteiramente consistentes em relação às suas afirmações de Divindade. Ele atuou, sem se justificar, como Deus encarnado! Ele proclamou a habilidade de perdoar os pecados (Mateus 9.2-6). Os judeus sabiam que qualquer mero homem que fizesse tal afirmação era um blasfemador. Jesus também aceitou adoração dos humanos, depois de dizer sem dúvida que adoração pertence somente a Deus (Mateus 4.10; 8.2; 9.18; João 9.38). Nas ações de Jesus ele afirmava ser Deus. Quando a meros homens ou anjos foram oferecidos tal adoração, eles apressavam-se à proibi-la (Atos 10.25-26; Apocalipse 22.8-9).

O que faremos com as ações de Jesus? Se ele foi um mero homem, certamente os judeus estavam certos em acusá-lo de blasfemar, por ter se apresentado como Deus. Não podemos atribuir suas ações a um simples homem e considerá-lo bom e perfeito. Jesus foi o Senhor, que afirmou ser, ou ele foi um mentiroso, ou um lunático.

Os Sinais de Jesus

Agora vamos para um verdadeiro teste das afirmações da Divindade de Jesus. Se ele realmente é Deus, criador e sustentador do universo, então seria razoável esperar que suas palavras fossem confirmadas com inegáveis demonstrações de poderes sobrenaturais. Os sinais, ou milagres, de Jesus preenchem um importante papel neste sentido. Os relatos do evangelho são cheios de detalhes de vários milagres os quais Jesus realizou. Estes milagres são claras e inegáveis demonstrações de poder. Jesus curou pessoas de evidentes enfermidades, ressuscitou os mortos, acalmou os mares, etc.

Até seus adversários não negaram a veracidade de seus milagres. Eles contestavam a fonte de seu poder (Mateus 12.22-28) e as autoritárias afirmações de que se podia perdoar pecados (Mateus 9.1-8). Eles criticaram porque Jesus curou nos sábados (João 9.13-16). Mas, não negavam a autenticidade de seus milagres! Jesus não é lunático, nem mentiroso e sim o que ele mesmo afirmava ser, Deus.

A Ressurreição de Jesus

O túmulo de Jesus foi encontrado vazio três dias após sua morte. Desde a época da morte de Jesus, existem duas explicações do sepulcro vazio. Uma é a explicação bíblica sobre qual a fé dos cristãos está  baseada em que Jesus ressuscitou dos mortos (1 Coríntios 15.3-4,14). A outra é aquela que foi tramada pelos mesmos homens que organizaram desonestamente a traição, julgamento e crucificação de Jesus. Os líderes religiosos subornaram os soldados para que disseram que o corpo de Jesus tinha sido roubado (Mateus 28.11-15). Note três falhas fatais desta explicação:

a) Foi comprovado que os sacerdotes mentiram.
b) O corpo nunca foi encontrado.
c) Os "ladrões de covas" (apóstolos) citados sofreram torturas terríveis e escolheram morrer porque não quiseram se retratar de sua afirmação que Jesus realmente ressuscitou. Homens morrem pelo que acreditam. É um absurdo afirmar que uma dúzia de homens estariam querendo morrer por uma mentira tão conhecida! A ressurreição apresenta-se como a máxima evidência da Divindade de Jesus.

Qual é a importância Disto?

Esses pequenos exemplos acima (as afirmações, as ações, os sinais, e a ressurreição de Jesus) servem meramente para apresentar a abundante evidência da Divindade de Jesus Cristo. Numa época em que a dúvida e a descrença estão em alta, toda pessoa que deseja seguir Jesus precisa cuidadosamente considerar o caso para com a Divindade de Cristo. Jesus mesmo declarou o significado deste tema quando ele disse: "Se não crerdes que Eu Sou, morrereis nos vossos pecados" (João 8.24). Você pode dizer, como o "duvidoso" Tomé disse, que Jesus Cristo é "meu Senhor e meu Deus" (João 20.28-31)? Sua resposta para esta questão é de eterno significado. Considere isto cuidadosamente.

Texto original de Denis Allan (fonte), Adaptado.

terça-feira, 22 de abril de 2014

O argumento do diabinho azul jocaxiano [Resposta da Resposta]


Olá, pessoal.

Para continuar, você deve antes ter lido a primeira parte deste texto aqui.

Recebi uma resposta que ficou tão grande que merecia ser replicada na forma de texto. Vou tentar responder na medida do possível. As citações estão em itálico; de JOCAX em azul e de Rubens Leite em vermelho.

Obs: Desculpem pelos erros ortográficos e a edição pobre, não estou tendo tanto tempo para dedicar ao blog quanto antigamente. Tenham paciência, leitores!

Abraços, Paz de Cristo.

sexta-feira, 28 de março de 2014

O pensamento de Roy Clouser sobre Teísmo Cristão e Ciência


Por Guilherme de Carvalho*

Resumo**

O filósofo americano Roy Clouser desenvolveu recentemente um modelo para explicar a relação entre a religião e a ciência, a partir de uma crítica interna do empreendimento científico. Segundo Clouser, todo pensamento teórico depende de pressuposições a respeito da ordem cósmica cuja natureza é indistinguível de certos tipos de crença religiosa – aquelas crenças a respeito do que constituiria o fundamento divino do mundo. A partir da observação da indistinguibilidade dessas crenças, Clouser sustenta que a ciência tem, necessariamente, um ponto de partida religioso que condiciona a construção teórica.

A partir dessa descoberta, Clouser apresenta a crença teísta cristã clássica como um ponto de partida viável para o empreendimento científico, e como uma imagem de mundo superior às imagens não-teístas de mundo, na medida em que estas não fornecem subsídios suficientes para lidar com o problema do reducionismo científico e com os impasses teóricos relacionados a ele. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

O Argumento do Diabinho Azul Jocaxiano


Olá, leitores. 


Aqui está mais uma resposta a leitor, que veio direto da seção de comentários. Aproveitei uma breve que fiz nos meus estudos aqui para publicá-la. 

Abraços, Paz de Cristo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ausência



Caros leitores,

não é com alegria que venho contar isto, mas devido a algumas questões pessoais, principalmente em relação à conclusão da minha faculdade, receio que verão o blog e a página no Facebook passar a ter uma frequência bem menor de atualizações.

Esta página em breve completará três anos desde a sua fundação e desde então tem funcionado a todo vapor, às vezes mais intensamente, às vezes menos. A página no Facebook ajudou a divulgar e estender o trabalho, que na rede social conta atualmente com mais de 6 mil fãs. Consegui contato com muitos outros blogueiros apologéticos em atividade, e sou muito agradecido ao apoio de muitos deles.

Se você aprecia o nosso trabalho e deseja ajudar para que ele não pare, não deixe de nos contactar. Quanto ao mais, para quem não conhece todo o nosso trabalho, você tem ao seu dispor aqui mais de uma centena de textos sobre os mais variados assuntos, relacionados à ciência, religião cristã e teísmo. Não deixe de conferir, visite também os nossos parceiros, aqui na aba lateral e não deixe de curtir a página no Facebook.

Abraços, Paz de Cristo.

Quebrando o Encanto do Neo-Ateísmo




Caros leitores,

venho com muita alegria anunciar o PQuENA (Projeto Quebrando o Encanto do Neo Ateísmo). O famoso blogue apologético que ficou fora do ar desde meados de 2012 teve quase todas as suas postagens recuperadas e colocadas em uma página do wordpress, da qual somos parceiros. Você pode acessá-la em:


Depois de quase um ano parado, mais modificações foram feitas, a saber, mais textos antigos foram acrescentados, os links quebrados nas postagens foram consertados e a página está melhor organizada. 

Não deixem de conferir o trabalho lá e aproveitem bastante, pois sem dúvida é o material mais rico de combate ao neo-ateísmo já publicado em português.

Abraços, Paz de Cristo.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Refutação da Refutação do Dilema de Eutífron [Resposta a Leitor]



24/10/2013 19h
Miqueas Galdino

Boa noite.  Achei uma resposta as refutações apologéticas sobre o Dilema de Eutifron. Seguem as premissas : 
Premissa 1: a definição de bom ou bondade é a natureza de Deus. A natureza de Deus é a fonte de toda a moralidade e tudo o que é bom. 
Premissa 2: A natureza de Deus é fixo. Não pode ser de outra maneira
Premissa 3: Depois de p.2, Deus não pode escolher entre o certo e o errado. Ele deve sempre fazer o que é certo desde sempre a fazer o que é certo é parte da natureza de Deus.
Premissa 4: Depois de p.3, a capacidade de escolher entre o certo e o errado não está na natureza de Deus. Ele não tem essa capacidade.
Premissa 5: Após p. 1 e p. 4, a capacidade de escolher entre o certo e o errado não é bom, uma vez que não está na natureza de Deus.
Premissa 6: Porque a natureza de Deus é boa,ele não pode querer algo que não é bom.
Premissa 7: Deus quis sobre os seres humanos a capacidade de escolher entre o certo e o errado.
Conclusão: De p.5, p.6 e p.7, Deus quis algo sobre os seres humanos que não é bom, uma vez que não está na natureza de Deus. Mas a natureza de Deus é, por definição, bom, então ele se contradisse.
Seria esse argumento válido ?

Respostas ao Ateísmo:

Boa noite caro Miqueas. 

Primeiro, tem algumas premissas mal formuladas aí. Logo na premissa 1, se diz "a natureza de Deus é a fonte de toda a moralidade". Isto está certo, mas note o que significa "moralidade". Moralidade é a distinção de valor entre as ações, e não a bondade em si. Ou seja, a natureza de Deus é a fonte de onde podemos saber se algo é bom ou não. 

Mas ainda sim este raciocínio não está completo: Deus além de ser bondoso, também é justo e juiz. Por ser juiz do Universo, Deus pune quem pratica o mal. A punição de quem pratica o mal é um mal do ponto de vista de quem praticou, por que sofre a punição, mas do ponto de vista global não, porque é bom que o mal seja punido. Isso quebra por exemplo a premissa 6.

Pense só: um pai que ama o filho deixa de castigá-lo por isso? E quando o pai castiga, ele deixa de ser bom? O castigo é uma consequência justamente do amor e do zelo que ele tem pelo filho, pois se não amasse seria indiferente ao ver o filho errar e persistir no erro. Da mesma forma, Deus é bom, mas isso não quer dizer que ele não tenha que fazer coisas que pareçam más de vez em quando, mas que no fundo refletem a sua bondade/amor/justiça.

A premissa 5 me fez pensar... é verdade que Deus não pode escolher o errado. Isso não é um defeito de Deus, afinal, seria um defeito se Ele PUDESSE errar. Mas eu acho que não é o livre arbítrio em si que é o mal, pois livre arbítrio implica em liberdade. O defeito é a CAPACIDADE de errar, a TENDÊNCIA de errar. Aí o autor misturou as coisas. "Liberdade de escolha" não é a mesma coisa que "capacidade de errar" nem "tendência a errar". Deus tem liberdade plena de escolha mas é incapaz de errar, por exemplo. 

O fato de Deus não poder escolher mentir ou fazer maldades sem motivo, por exemplo, não é uma limitação ao poder ou à liberdade de Deus, mas uma limitação por implicação lógica; ou seja, se Deus fizesse estas coisas, deixaria de ser Deus (porque estaria fazendo maldades, sendo imperfeito), o que é absurdo. Da mesma forma que ninguém pode me chamar de mau desenhista porque eu não sei desenhar um triângulo de quatro lados. Isso é simplesmente e intrinsecamente 
impossível.

Abraços, Paz de Cristo.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

As 5 afirmações mais idiotas que ouvi na universidade



Se você quiser dar uma boa risada, basta visitar um campus universitário e ouvir em algumas conversas aleatórias. Os temas mais estranhos são discutidos. Vamos analisá-los. Muitas coisas idiotas são ouvidas nos campi universitários. A maioria vem da boca dos arrogantes estudantes de graduação que pensam que sabem tudo, mas não são os únicos… Às vezes os professores (em sua maioria) são piores! Especialmente quando se trata de religião, teologia e filosofia. Por que é que os professores que sabem pouco ou nada sobre religião, teologia, filosofia, política gostam de fazer afirmações ousadas sobre religião, teologia e filosofia e política? Eu ouvi o meu quinhão de acusações ridículas feitas em nome dos acadêmicos e eu decidi listar as 5 piores aqui.

5. O censo registrado em Lucas 2 é obviamente inventado. Por que César chamaria a todos para sua cidade natal, a fim de registrá-los? Imagine se Obama quisesse registrar a população e pedisse a todos para retornar à sua cidade natal! Imagine o caos que iria acontecer!

Of course! Porque nós sempre determinamos a historicidade de um evento na Antiguidade, imaginando como seria viável se fosse promulgado no século 21! Grande metodologia histórica!

O censo registrado em Lucas 2, que afirma que todos foram obrigados a voltar para sua cidade natal a fim de ser registrados não pode ser uma invenção só porque não conseguimos entender  como Obama emitiria uma ordem dessas atualmente. Usando essa linha de raciocínio, teríamos de jogar fora tudo o que sabemos sobre a história! Os faraós egípcios e imperadores romanos nunca deixaram de ver a si mesmos como figuras divinas, só porque o presidente Obama não proclama isso sobre si atualmente. Civilizações antigas não deixaram de utilizar carruagens como principal meio de transporte só porque a sociedade ocidental atual não utiliza normalmente carruagens, pois temos modos ligeiramente mais eficientes de transporte como automóveis e aviões (embora eu afirme que carruagens são muito mais legais).

4. Os Evangelhos foram escritos 200 anos após a morte de Jesus.

Eu ainda tenho que encontrar qualquer estudioso da Antiguidade que acredita nisso. Mesmo os estudiosos mais liberais e céticos do Novo Testamento colocam a composição dos Evangelhos dentro de todo o século I.

Marcos: 70 d.C.

Mateus: 80 d.C.

Lucas: 90 d.C.

João: 100 d.C.

Estas são datas gerais e estão mais próximas aos propostos por estudiosos liberais. A datação dos Evangelhos é complicada. Existem várias linhas de estudos acadêmicos que têm opiniões diferentes, mas os estudos mais acadêmicos e abalizados do Novo Testamento estão de acordo com relação aos Evangelhos terem sido compilados antes do século II.

3. O argumento cosmológico é muito frágil. Os defensores do argumento cosmológico não percebem que há um enorme problema com a ideia de uma “causa” para o universo. Eles não percebem que a causa tem que ser natural.

Então o sujeito simplesmente pára por aí, como se o caso fosse resolvido.

Você pode estar tão confuso quanto eu.

É isso mesmo? É isso o que está afirmando? Esse é o poderoso “argumento que põe por terra” o argumento cosmológico?

Se o universo tem uma causa, então a causa deve ser natural? Por quê? Além disso, se a natureza é definida como toda a matéria, energia, tempo e espaço, e se toda a natureza veio à existência no início do universo com o big bang, então como pode a causa de toda a natureza ser natural?

2. Não há nenhuma fonte não-bíblica que menciona Jesus.

Se por “nenhuma fonte” você quer dizer 33 fontes dentro de 150 anos de vida de Jesus, compostas por 20 fontes cristãs, 4 fontes gnósticas e 9 de fontes seculares, então você está correto!

Fontes seculares que mencionam Jesus: Josefo (historiador judeu), Tácito (historiador romano), Plínio o Jovem (político romano), Flegonte (escravo liberto que escrevia histórias), Luciano de Samósata (satírico grego), Celso (filósofo romano), Mara Bar Serapião (prisioneiro que aguardava execução), Suetônio (historiador romano), e Talo (Gary Habermas e Michael Licona,  Em defesa da ressurreição de Jesus, Grand Rapids: Kregel, 2004, p. 233).

1. Darwin contribuiu muito. Sabemos que Deus não existe, porque agora entendemos a evolução.

1. Darwin nos deu um mecanismo pelo qual podemos entender como as formas de vida mais elevadas evoluíram a partir de formas de vida inferiores.
2. Portanto, Deus não existe.

Ou há uma série de premissas implícitas que precisam ser retiradas para que esse argumento possa funcionar ou isso é logicamente falacioso (e muito tolo).

A conclusão não segue as premissas. É totalmente irracional. Como a evolução mostra que não há Deus? Não há absolutamente nenhuma conexão entre os dois. A evolução é simplesmente uma explicação para a variação e a similaridade entre e entre as espécies. Diz-nos como nós evoluímos. Ela não faz nada para apresentar um processo contra a existência de Deus. Nem um pouco.

Então temos isso, declarações tolas e imbecis feitas por aqueles que professam a honestidade intelectual e rigor na apresentação de pontos de vista opostos de forma justa e sem descaracterizações. Isto é essencialmente um disparate pseudo-intelectual que procura desacreditar o teísmo sem ter uma sólida compreensão dos argumentos e ideologias que estão sendo apresentadas. Deturpar a posição do seu adversário e argumentar contra ele sem tomar tempo para pesquisar corretamente, leva-se a objeções amadoras e argumentos facilmente refutáveis. Principalmente para os nossos  brilhantes faróis da academia …


Tradução: Emerson de Oliveira

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O que seria das mulheres sem o cristianismo?


Por Leandro Teixeira.

Muito se fala sobre a situação da mulher na sociedade moderna. Acreditam não poucos que há um grande desnível – ou abismo mesmo – entre os direitos e deveres do homem e os da mulher, sendo que essa última tem sido historicamente prejudicada. E não faltam candidatos a carrasco do sexo feminino. A última moda agora é acusar as religiões de forma geral, e o Cristianismo, em especial.

Não há a menor dúvida de que existem religiões no mundo que cerceam os direitos da mulher. O Islamismo é um bom exemplo deste tipo. Tanto o seu livro sagrado como a sua literatura teológica discrimina e rebaixa gravemente a mulher a ponto de torná-la um objeto de propriedade, primeiramente do pai, e depois do marido. Contudo, neste texto quero provar que não há razão por que colocar o Cristianismo no mesmo cesto das religiões que pejoram a mulher. Mais do que isso, vou mostrar como o Cristianismo colocou a mulher em uma situação muito melhor do que qualquer outro sistema religioso ou filosófico que já existiu.

Um pouco de história

A vida da mulher não era fácil nas culturas antigas. Em geral, eram propriedade dos maridos. Não eram consideradas capazes ou competentes para agirem independentemente. Vejamos a Grécia antiga. Aristóteles disse que a mulher estava em algum lugar entre o homem livre e o escravo (considerando que a situação do escravo não era nenhum pouco auspiciosa, perceba a pobre situação feminina), e que era um “homem incompleto” (Política). Platão, por sua vez, entendia que se o homem vivesse covardemente, ele reencarnaria como mulher. E se essa se portasse de modo covarde, reencarnaria como pássaro (A República, Livro V).

A sorte das mulheres não era muito melhor na Roma antiga. Poucas famílias tinham mais de uma filha. O casamento romano era uma forma de trazer mais material humano para formação do exército, e assim permitir à Roma a continuidade de sua expansão; por isso, o interesse estava em ter filhos homens. Daquelas, porém, que sobreviveram ao infanticídio, eram-lhes reservadas as tarefas do lar, mas não o exercício da cidadania e a participação política, coisa reservada apenas aos patrícios homens.

Na China, até bem recentemente, o infanticídio era uma prática comum. Os bebês do sexo feminino eram entregues como alimento aos animais selvagens ou deixados para morrer nas torres dos bebês. Adam Smith escreveu sobre essa prática no seu famoso livro, A Riqueza das Nações, de 1776. Ele fala inclusive que o descarte de bebês indesejados era mesmo uma profissão reconhecida e que gerava renda para muitas pessoas.

Vejamos outros casos. Na Índia, viúvas eram mortas juntamente com seus maridos – a prática chamada de sati (que significa, a boa mulher). Também havia tanto o infanticídio quanto o aborto feminino. Além disso, meninas eram criadas para serem prostitutas cultuais – as devadasis. Nessa prática religiosa, a menina era “casada com” e “dedicada a” um dos deuses hindus. Nos rituais de adoração a esses deuses havia dança, música e outros rituais artísticos. Conforme iam crescendo, as devadasis se tornavam servas sexuais, de homens e dos “deuses”. Ainda hoje, famílias pobres entregam suas filhas para estas deidades com o objetivo de alcançar delas algum favor, ou ainda obter algum meio de renda com os frutos da prostituição.

Na África, o problema era semelhante à prática do sati da Índia. Quando um líder tribal morria, as esposas e concubinas do chefe eram mortas juntamente com ele. Mesmo hoje, no Oriente Médio, o valor da mulher é mínimo.

A mudança trazida pelo Cristianismo

Que diferença trouxe a vinda de Jesus Cristo entre nós? Muita, em vários pontos. Na verdade, foi uma revolução. Muito do que Jesus Cristo ensinou já era praticado pela sociedade judaica (que era muito diferente das nações à sua volta), e outros pontos tiveram seus termos desenvolvidos por Ele. Mas mesmo os judeus tinham um tratamento discriminatório em relação às mulheres; Jesus, entretanto, se relacionava de forma saudável com elas. De forma geral, o Cristianismo colocou a mulher em pé de igualdade com os homens. Como ele fez isso?

- Dizendo que ambos foram criados por Deus, à sua imagem e semelhança (E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou – Gên 1:27). Para Deus, homens e mulheres têm o mesmo valor (Gl 3.28);

- Que ambos deveriam dominar e sujeitar a natureza (E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra – Gn 1.28). Não há nada que impeça a mulher, tanto quanto o homem, de explorar a criação em cumprimento ao mandato cultural;

- A decisão de Deus criar a mulher a partir de Adão declara que ambos provêm da mesma essência (Gn 2.22), mostrando que a mulher em nada é inferior ao homem, nem tampouco lhe é superior. E a declaração de Adão mostra que sua mulher Eva é parte de si mesmo, tendo o mesmo valor que ele próprio (Gn 2.23 );

- Que o casamento, como instituição divina, implica que o homem foi feito para a mulher, assim como a mulher foi feita para o homem, e dessa forma ambos andam como uma unidade em dois corpos (Gn 2.24), o que destrói a ideia de que a mulher é escrava do marido, ou vice-versa. São complementares;

- O Cristianismo também evitou que a mulher fosse injustiçada, não permitindo a poligamia, que é inerentemente prejudicial a elas (1Co 7.2);

- O Cristianismo ensinou o cuidado com as viúvas. Elas, se não tivessem recursos, deveriam ser cuidadas e sustentadas pela igreja (1Tm 5). Se o marido morre, ela é livre para continuar viúva ou casar novamente, se quiser;

- O Cristianismo condenou a prostituição ao declarar que o corpo não pertence a nós mesmos, mas a Deus, e que ele é templo do Espírito Santo (1Co 6.13,19). O corpo do homem pertence à mulher, e o da mulher ao homem (1Co 7.4);

- O Cristianismo aprova a instituição do casamento, que não só protege a mulher da exposição aos males sociais, como provê um ambiente seguro material, espiritual e sentimentalmente para o seu desenvolvimento integral (Ef 5.28-29);

- O Cristianismo protege a vida, que entende começar no momento da concepção. Dessa maneira, nenhuma criança deixa de nascer devido a características indesejáveis (pelos pais) que ela tenha ou seja. A vida é direito inviolável, outorgada por Deus, sendo que somente Ele tem direito de reavê-la (1Sm2.6; Jó 1.21);

- O Cristianismo também proibe a pornografia, pois entende que ela é equivalente ao adultério. Com isto, a mulher deixa de ser vista como um objeto aos olhos do homem, e reserva o sexo e a nudez para aquele que tem direito a estas coisas, a saber, o marido (Mt 5.28).

Uma palavra sobre o movimento feminista

Se há algum direito, de qualquer pessoa que seja, que deva ser assegurado, eu sou completamente a favor da luta por ele. A sociedade falha em tratar as mulheres adequadamente porque ela não é uma sociedade moldada exclusivamente pela moral cristã. Muitos dos direitos pelos quais o movimento feminista luta são justos: direitos trabalhistas iguais aos do homem, proteção contra violência física e emocional, igualdade de direitos civis, entre outros. Porém, alguns pontos pelos quais ele luta não são bons, como, por exemplo, o aborto. Ora, o aborto sempre foi uma ferramenta usada pelo homem – e geralmente usado para evitar nascimento de mulheres! O aborto se refere a algo além do corpo da mulher; é outro ser vivo. Ocorre que ao lutar por este “direito”, a mulher trata um bebê ainda não nascido como algo menos que humano, tal como um objeto: ou seja, do mesmo modo que ela própria já foi tratada na história.

Outro problema que eu vejo é que algumas feministas mais exaltadas não querem simplesmente uma equiparação de direitos; desejam ocupar o lugar do homem que as explorava, transformando-se em exploradoras. Almejam uma inversão de papéis. Ao invés de uma sociedade patriarcal, sonham com uma matriarcal. E algumas feministas ainda descambam para a misandria – o ódio pelo sexo masculino.

Concluindo

O que o paganismo faz para proteger a mulher? Nunca fez nada, e nunca fará. E estas outras religiões não-cristãs? Normalmente colocam o sexo feminino em uma posição inferior a do homem. E o humanismo? Nada trouxe de bom para as mulheres. Na prática, uma vertente humanista (evolucionista) ensina que nada há de especial na humanidade; tudo que há é resultante de acaso. Somente o mais forte sobrevive (ou domina). Se for o sexo masculino, assim deve continuar a ser. É natural que seja assim. Não há justificativa moral (do ponto de vista evolucionista) para proibir a violência fisica, sexual, emocional à mulher, e nem mesmo porque condenar posicionamentos machistas. A máxima é “o que agora é, é o certo”.

Mas não é assim com o Cristianismo. Em todos os lugares onde ele chegou, as condições das mulheres melhoraram. Onde ele não alcançou, vê-se coisas terríveis, como a eugenia sexual, o infanticídio e a prostituição. Contudo, podemos ver que algumas sociedades, que já foram declaradamente cristãs, hoje estão decaindo moralmente com o avanço do antigo paganismo – legalizando o aborto, o homossexualismo e a prostituição. Seria interessante que algumas feministas, que falam ousadamente contra o Cristianismo, aprendessem um pouco mais da história da humanidade e assim apercebam-se de que, se não fosse por essa religião que elas tanto condenam, talvez elas sequer estivessem vivas hoje.

Fonte: Napec

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Falácia do Contexto Bíblico


A wiki Teonismo disponibiliza um grande acervo de material relacionado à apologética cristã. Recentemente vi lá algo que me chamou a atenção, e que é um problema recorrente nos debates entre o cristianismo e não-cristianismo (outras religiões ou o ateísmo). Trata-se da Falácia do Contexto Bíblico.

O nome foi criado pela própria wiki, como sendo uma falácia lógica não oficial, uma mistura da falácia do espantalho com a citação fora de contexto. Infelizmente, este é um dos métodos mais utilizados por neo-ateus para dar descrédito a certas verdades cristãs, alegando supostas contradições e incoerências bíblicas quando na verdade não se usa as ferramentas adequadas para o contexto bíblico.

A Falácia

O que normalmente ocorre é o fato de considerar-se alguns versículos da Bíblia sobre algum tema e ignorar-se os demais, acabando por causar incompreensões. Trata-se de uma mesclagem das falácias do espantalho (diminuir o valor real do argumento para tornar mais fácil de refutá-lo) e da citação fora do contexto (neste caso, todo o contexto bíblico).

Na minha visão, ocorrem dois problemas principais. O primeiro problema é ignorar o conceito cristão da complementaridade da Bíblia. O cristão lê a Bíblia como um documento único, não considerando trechos isolados dela como a palavra final para algo, sem considerar o que o resto da Bíblia diz sobre isso. Um exemplo disto é a Lei de Talião: "Olho por olho, dente por dente", enunciada em Êxodo 21.24. Dizer que a Bíblia é repulsiva porque apoia a vingança ou coisa do tipo, mas se olharmos a Bíblia como um todo, vemos que Jesus cerca de 1500 anos depois revogou essa lei, dando um entendimento mais perfeito aos homens: "Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente’. Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas. Dê a quem lhe pede, e não volte as costas àquele que deseja pedir-lhe algo emprestado". (Mateus 5.38-42) Alguém aí poderá reclamar dizendo que isso é uma contradição da Bíblia, mas isso é desconsiderar o contexto em que estas duas coisas foram ditas. Voltarei a este assunto mais adiante.

O segundo problema, como eu já mencionei antes, é a falta de uso das ferramentas necessárias para a interpretação do texto bíblico. Assim como qualquer outro texto, a Bíblia está sujeita às regras básicas de interpretação de texto. E por se tratar de textos antigos, os procedimentos são mais criteriosos ainda em alguns aspectos.

Um panorama do texto bíblico

A Bíblia é um conjunto complexo de textos, escritos num período de cerca de 1400 a.C. a 90 d.C., por mais de 40 autores diferentes, com línguas diferentes (grego, hebraico e aramaico), e gêneros literários diferentes, que vão desde documentos oficiais de reis até poesias e hinos, passando por narrações, parábolas, epístolas, profecias, legislação e códigos morais. Não se lê uma poesia da mesma forma que se lê um relatório oficial, assim como não se lê uma narração histórica de um fato da mesma forma que uma parábola. Também não se pode analisar um texto escrito há milhares de anos utilizando o nosso pano de fundo cultural como guia. A mente das pessoas daquela época não é igual à nossa.

Além disso, muitas vezes não são esses detalhes históricos que são importantes para o cristão, mas sim a essência da mensagem bíblica, que consiste no relacionamento de Deus com o homem, centrado no ministério de Jesus Cristo quando veio à Terra. Todos os livros da Bíblia estão ligados direta ou indiretamente a este fato. Em Gênesis, vemos a raça humana sendo corrompida pelo pecado e Deus escolhendo uma um homem para formar a nação na qual um dia Jesus nasceria. Nos livros seguintes, Deus está preparando espiritualmente esta nação, aos poucos. No Novo Testamento a obra redentora de Deus para a humanidade é consumada e é contada a história dos primeiros seguidores de Jesus e das primeiras igrejas. Esta linha histórica deve ser clara na mente de quem deseja extrair informação pertinente do texto bíblico.

Ferramentas de interpretação

"A Hermenêutica é um ramo da filosofia que estuda a teoria da interpretação, que pode referir-se tanto à arte da interpretação, ou a teoria e treino de interpretação. A hermenêutica tradicional - que inclui hermenêutica Bíblica - se refere ao estudo da interpretação de textos escritos, especialmente nas áreas de literatura, religião e direito" (Wikipédia). Existe todo um conjunto de conhecimentos relacionados a como se deve interpretar um texto. A hermenêutica bíblica possui algumas regras:
Regra Fundamental (Primeira Regra):  Scriptura sacra sui ipsius interpres, isto é, a Escritura Sagrada é a sua própria intérprete. Muitas vezes o próprio texto bíblico explica o seu sentido. 
Segunda Regra: É necessário tomar as palavras no sentido que indica o conjunto da frase.
Terceira Regra: É necessário tomar a frase no sentido indicado no contexto, a saber, os versículos que precedem e seguem ao texto que se estuda.
Quarta Regra: É preciso tomar em consideração o objetivo ou desígnio do livro ou passagem em que ocorrem as palavras ou expressões obscuras.
Quinta Regra: É necessário consultar as passagens paralelas. Para conseguir a ideia completa e exata do que ensina a Escritura neste ou naquele texto determinado, talvez obscuro ou discutível, consultam-se não só as palavras paralelas, mas os ensinos, as narrativas e fatos contidos em textos ou passagens aclaratórios que se relacionem com o dito texto obscuro ou discutível. Tais textos ou passagens chamam-se paralelos de idéias.
Ás vezes, quando para a aclaração e correta interpretação de determinadas passagens que não são suficientes os paralelos de palavras e idéias, é preciso recorrer ao teor geral, ou seja, aos ensinos gerais das Escrituras.
É importante também estudar as figuras de linguagem ou de retórica (que aliás é tema obrigatório no ensino médio no Brasil), para entender quando os textos não são ditos literalmente. Isto é considerar a gramática na interpretação. Além disso, outro fator importante é o cenário histórico, ou seja, os eventos da narrativa, a quem é dirigida e como foi compreendida na época.

Voltando ao exemplo da Lei de Talião, se desconsiderarmos o contexto histórico da situação e olharmos para ela a partir dos dias de hoje, quando temos declarações de direitos humanos, etc.,  não vamos ver sentido naquelas palavras, e vamos supor que a Bíblia recomenda um padrão retrógrado de moralidade. Mas se olharmos esta passagem no sentido histórico e entendermos como alguém daquela época via este texto, perceberemos que ele se constituía em um grande avanço para a época. Deus estava ensinando a justiça para o seu povo, que estava acostumado a ser tratado injustamente por 400 anos, sendo escravizado no Egito, e desconheciam princípios básicos de justiça. A Lei de Moisés também continha o amor como um princípio complementar à justiça: "Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor." (Levítico 19.18). Jesus veio e mostrou que na verdade o amor é superior à justiça, ou seja, completou o ensinamento de Moisés, revelou mais uma parte da verdade, fez mais um avanço para os dias da época, e de fato os padrões morais de Jesus são um avanço até para os dias de hoje, tendo em vista os ensinamentos como "amem os vossos inimigos e (...) orem por aqueles que vos perseguem" (Mateus 5.43).

Para complementar nossa visão, vamos falar um pouco mais de "amor". A frase bíblica "Deus é amor" (1 João 4.8) é muito conhecida. Aqui poderia se cometer o erro de pensar que Deus é "puro amor", que não existe nada mais em Deus além de amor romântico. Aliás há confusão até no conceito de amor aqui. O texto original em grego, usa a palavra agape, que é a tendência em se sacrificar para o benefício de outra pessoa, como os pais fazem com os filhos; não é o amor romântico ou sentimental. Além disso, o contexto mostra que João estava escrevendo uma carta para as igrejas cristãs do primeiro século d.C., e o assunto deste capítulo não era um "tratado sobre o amor de Deus", mas sim uma advertência contra os falsos ensinos que se proliferavam naquela época (v. 1), ressaltando que o amor (agape) era a marca do cristão verdadeiro (v. 7). Ampliando mais a nossa visão para abranger toda a Bíblia, descobriremos que o amor não é a única parte da essência de Deus, mas também há a santidade, justiça, fidelidade, graça, misericórdia, bondade, onipotência, onipresença, onisciência, etc. Uma vez que Deus é Santo, ele não tolera a corrupção e a maldade. Não se pode amar a verdade sem odiar a mentira; não se pode amar a pureza sem odiar a corrupção. Deus também odeia (Salmo 11:5).

As supostas contradições

Façamos um breve estudo de caso, quanto às desonestidades intelectuais proferidas por neo-ateus em desconsiderar o contexto bíblico. Um exemplo comum é o da apologia da Bíblia à escravidão. Veja a imagem abaixo:


Uma citação descontextualizada do apóstolo Paulo serve para afirmar que ele apoiava a escravidão, ou pior, afirmar que a Bíblia apoia a escravidão? Vamos lembrar dos elevados padrões morais bíblicos: o próprio Paulo disse uma vez que "nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gálatas 3.28). Acho que vocês não tem noção do quanto esta frase é impactante para os padrões da época. Num contexto onde a exploração das mulheres e a escravidão eram regra, esta pérola moral surge dos ensinamentos de Paulo: todos são iguais perante Deus, o homem não é maior que a mulher, o senhor não é maior que o escravo. Ninguém na história havia dito isto antes, e de fato, este princípio moral é tão a frente de seu tempo que só foi absorvido pela cultura geral ocidental muitos séculos mais tarde com as declarações de direitos humanos. É isto que os textos paralelos nos esclarecem.

Olhando o contexto histórico, vemos que a escravidão praticada naquela época era em muito diferente da que estamos acostumados a pensar, da imagem a qual o cartaz nos remete enganosamente. Para isso basta ler um pouco de História. Além disso, a escravidão era uma realidade social existente há milhares de anos, que não poderia simplesmente ser mudada de uma hora para a outra, pois acarretaria em danos econômicos irreversíveis ao Império Romano, dentre outras coisas.  Por isso a solução pragmática de Paulo para aquele momento era procurar meios de tornar essa mesma realidade menos penosa para os escravos. Por isso recomendou um tratamento mais humano para os escravos e para que os mesmos fossem obedientes e comportados, evitando razões para serem castigados. O resultado histórico é que o padrão moral cristão aos poucos mudou esta realidade no Império Romano, fazendo com que muitos anos depois a escravidão fosse abolida naquela cultura. (Para saber mais sobre a Bíblia e a Escravidão, leia aqui no blog: A Bíblia e a Escravidão e Refutação # 13 - godisimaginary.com).

Por mais assustador que possa, parecer, existem sites neo-ateus especializados em cometer este tipo de falácia. O conhecidíssimo Why Won't God Heal Amputees? (Por que Deus não cura amputados?) é um belo exemplo disso, e o seu primo God is imaginary consegue ser ainda pior. Para quem não sabe, eu escrevi uma refutação completa deste último site, que você encontra aqui no blog: 50 "provas" que Deus é imaginário REFUTADAS.

Epílogo

Boa parte do conteúdo da Bíblia contém verdades de caráter espiritual, isto é, que visam atingir o nosso espírito, para aplicarmos em nosso relacionamento com Deus. Por isso a Bíblia deixa claro que é necessária a iluminação dada pelo Espírito Santo para a compreensão destas verdades no texto (1 Coríntios 2.10-16). Por isso o cristão acredita que não só a hermenêutica deve ser respeitada, mas também o relacionamento com Deus é importante para poder entender e aplicar as palavras espirituais como lições de vida. A atitude do cristão ao ler a Bíblia é a mesma que a oração do salmista: "Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei" (Salmo 119:18).


Referências para estudo:

E. LUND - Hermenêutica: regras de interpretação bíblica. Disponível em:

Hermenêutica.com: princípios, estudos, mensagens e ilustrações

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Filósofo Luiz Felipe Pondé explica por que deixou de ser ateu


A revista Veja de 13/7 publicou entrevista interessante com o filósofo Luiz Felipe Pondé, de 52 anos. Responsável por uma coluna semanal na Folha de S. Paulo e autor de livros, Pondé costuma criticar certezas e lugares-comuns bem estabelecidos entre seus pares. Professor da Faap e da PUC, em São Paulo, o filósofo também é estudioso de teologia e considera o ateísmo filosoficamente raso, mas não é seguidor de nenhuma religião em particular. Pondé diz que “a esquerda é menos completa como ferramenta cultural para produzir uma visão de si mesma. A espiritualidade de esquerda é rasa. Aloca toda a responsabilidade do mal fora de você: o mal está na classe social, no capital, no estado, na elite. Isso infantiliza o ser humano. Ninguém sai de um jantar inteligente para se olhar no espelho e ver um demônio. Não: todos se veem como heróis que estão salvando o mundo por andar de bicicleta”. Sobre sexo, ele diz: “Eu considero a revolução sexual um dos maiores engodos da história recente. Criou uma dimensão de indústria, no sentido da quantidade, das relações sexuais – mas na maioria elas são muito ruins, porque as pessoas são complicadas.”

Leia aqui mais alguns trechos da entrevista:

Por que a política não pode ser redentora?

O cristianismo, que é uma religião hegemônica no Ocidente, fala do pecador, de sua busca e de seu conflito interior. É uma espiritualidade riquíssima, pouco conhecida por causa do estrago feito pelo secularismo extremado. Ao lado de sua vocação repressora institucional, o cristianismo reconhece que o homem é fraco, é frágil. As redenções políticas não têm isso. Esse é um aspecto do pensamento de esquerda que eu acho brega. Essa visão do homem sem responsabilidade moral. O mal está sempre na classe social, na relação econômica, na opressão do poder. Na visão medieval, é a graça de Deus que redime o mundo. É um conceito complexo e fugidio. Não se sabe se alguém é capaz de ganhar a graça por seus próprios méritos, ou se é Deus na sua perfeição que concede a graça. Em qualquer hipótese, a graça não depende de um movimento positivo de um grupo. Na redenção política, é sempre o coletivo, o grupo, que assume o papel de redentor. O grupo, como a história do século 20 nos mostrou, é sempre opressivo.

Em que o cristianismo é superior ao pensamento de esquerda?

Pegue a ideia de santidade. Ninguém, em nenhuma teologia da tradição cristã – nem da judaica ou islâmica –, pode dizer-se santo. Nunca. Isso na verdade vem desde Aristóteles: ninguém pode enunciar a própria virtude. A virtude de um homem é anunciada pelos outros homens. Na tradição católica – o protestantismo não tem santos –, o santo é sempre alguém que, o tempo todo, reconhece o mal em si mesmo. O clero da esquerda, ao contrário, é movido por um sentimento de pureza. Considera sempre o outro como o porco capitalista, o burguês. Ele próprio não. Ele está salvo, porque reclica lixo, porque vota no PT, ou em algum partido que se acha mais puro ainda, como o PSOL, até porque o PT já está meio melado. Não há contradição interior na moral esquerdista. As pessoas se autointitulam santas e ficam indignadas com o mal do outro.

Quando o cristianismo cruza o pensamento de esquerda, como no caso da Teologia da Libertação, a humildade se perde?

Sim. Eu vejo isso empiricamente em colegas da Teologia da Libertação. Eles se acham puros. Tecnicamente, a Teologia da Libertação é, por um lado, uma fiel herdeira da tradição cristã. Ela vem da crítica social que está nos profetas de Israel, no Antigo Testamento. Esses profetas falam mal do rei, mas em idealizar o povo. O cristianismo é descendente principalmente desse viés do judaísmo.

Também o cristianismo nasceu questionando a estrutura social. Até aqui, isso não me parece um erro teológico. Só que a Teologia da Libertação toma como ferramenta o marxismo, e isso sim é um erro. Um cristão que recorre a Marx, ou a Nietzsche – a quem admiro –, é como uma criança que entra na jaula do leão e faz bilu-bilu na cara dele. É natural que a Teologia da Libertação, no Brasil, tenha evoluído para Leonardo Boff, que já não tem nada de cristão. Boff evoluiu para um certo paganismo Nova Era – e já nem é marxista tampouco. A Teologia da Libertação é ruim de marketing. É como já se disse: enquanto a Teologia da Libertação fez a opção pelo pobre, o pobre fez a opção pelo pentecostalismo.

O senhor acredita em Deus?

Sim. Mas já fui ateu por muito tempo. Quando digo que acredito em Deus, é porque acho essa uma das hipóteses mais elegantes em relação, por exemplo, à origem do universo. Não é que eu rejeite o acaso ou a violência implícitos no darwinismo – pelo contrário. Mas considero que o conceito de Deus na tradição ocidental é, em termos filosóficos, muito sofisticado. Lembro-me sempre de algo que o escritor inglês Chesterton dizia: não há problema em não acreditar em Deus; o problema é que quem deixa de acreditar em Deus começa a acreditar em qualquer outra bobagem, seja na história, na ciência ou sem si mesmo, que é a coisa mais brega de todas. Só alguém muito alienado pode acreditar em si mesmo. Minha posição teológica não é óbvia e confunde muito as pessoas. Opero no debate público assumindo os riscos do niilista. Quase nunca lanço a hipótese de Deus no debate moral, filosófico ou político. Do ponto de vista político, a importância que vejo na religião é outra. Para mim, ela é uma fonte de hábitos morais, e historicamente oferece resistência à tendência do Estado moderno de querer fazer a cura das almas, como se dizia na Idade Média – querer se meter na vida moral das pessoas.

Por que o senhor deixou de ser ateu?

Comecei a achar o ateísmo aborrecido, do ponto de vista filosófico. A hipótese de Deus bíblico, na qual estamos ligados a um enredo e um drama morais muito maiores do que o átomo, me atraiu. Sou basicamente pessimista, cético, descrente, quase na fronteira da melancolia. Mas tenho sorte sem merecê-la. Percebo uma certa beleza, uma certa misericórdia no mundo, que não consigo deduzir a partir dos seres humanos, tampouco de mim mesmo. Tenho a clara sensação de que às vezes acontecem milagres. Só encontro isso na tradição teológica.

Fonte: CACP
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